Terça-Feira 26/05/2020 07:45

Nomes para a folia

Estado - Opinião - Carnaval

 

                Por Agnaldo Holanda*

 

Faz cerca de 10 anos que escrevi, publicando aqui neste mesmo veículo, um texto em que falava dos nomes das operações da Polícia Federal (PF). À época, eu estava mais imerso no campo das Letras e aventei a hipótese de que estavam sendo criados os “actônimos” – nomes dados a atos quaisquer, mas em especial aos dessas noticiadas operações, em que não costumam faltar confetes para a PF, condenações prévias e públicas, e também um certo japonês sempre de óculos escuros.

Desculpem-me, leitor e leitora, por tantas informações condensadas. Vamos por partes. Primeiro, os nomes.

Quando um casal descobre que vai ter um filho, são nove meses de prazo para escolher, cuidadosamente, agradando tanto ao pai quanto à mãe e talvez ao restante da família, um nome para o rebento. Pois é esse nome que irá acompanha-lo ao longo de toda sua vida, será sua identidade. Tudo bem que há pais que utilizem essa oportunidade para castigar já desde cedo o pequeno, por exemplo hoje, em pleno século XX, batizando um bebê com carinha de anjo com um nome das antigas: Cornélio. Imaginem só, a criança desde cedo na escola sendo motivo de chacotas entre os colegas.

Vejam que não se trata de um nome feio, é até bem sonoro, fácil de falar. Mas ocorreu de o modismo linguístico, as gírias, tudo isso ter feito com que se estabeleça de imediato, hoje, a associação do nome próprio “Cornélio” com o termo “corno”, este um tanto depreciativo – até mesmo em função do machismo que predomina entre nós. Amém.

O bebê recém-nascido, que é batizado com um nome que lhe é dado pelos pais, não está livre de receber, oportunamente, algum outro que cole melhor em sua personalidade – para o bem ou para o mal. Vejam o caso de Pelé. Quase ninguém, exceto talvez os familiares próximos, o chamam ou o conhecem pelo nome de Edson. O apelido virou marca, deve valer milhões, o sujeito se beneficia disso. Agora, há o caso de outros apelidos pouco carinhosos, por exemplo pezão, champinha, nicotina, cheiroso... e por aí vai. Mas mesmo assim tais nomes se tornam marcas registradas, referências quase únicas.

Os nomes das pessoas, de lugares, de acidentes geográficos dão nome a ruas, avenidas, aeroportos, pontilhões -- é o que chamamos de “topônimos” (tophos = lugar; nome do lugar). Os próprios nomes dos lugares são obtidos com base em elementos associados à sua história: rio Bonito, cidade de São Paulo... Dá até para se dizer que, no princípio, Deus criou o verbo, mas logo viu que precisava criar o substantivo e assim o fez.

Legenda: O japonês... ah, o japonês!

 

Mas voltando: O nome dá força, cria a identidade. E assim também entendeu a Polícia Federal, que parece dispor de um departamento inteiro, com inúmeros funcionários inteligentes e criativos, para batizar suas operações que vão aparecer intensamente na mídia logo depois de deflagradas: Operação hurrycane (o nome em inglês para furacão – talvez porque os policiais, em busca de provas, deixam a casa do suspeito em petição de miséria, após revirar tudo?). E esta última e parece que uma das mais extensas, então, a “operação lava-jato”. Seria referência a algum jatinho que está sendo lavado, ou aos populares centros de lavagem automotiva, que mais corretamente devem ser batizados de “lava-a-jato”, referindo-se à rapidez dos serviços?

Sei que isso tudo deve estar disponível, mediante uma rápida pesquisa, aos interessados – não é o meu caso, já devem ter percebido. O que importa aqui é essa obsessão pela nomenclatura, pelo batismo de tudo.

Um caso recente, que andei observando é o Carnaval. O Carnaval existe desde tempos remotos. Em sua etimologia, o significado é "adeus à carne" (carnis levale): lá pelo século VI antes de Cristo, para adentrar num período de abstinência e jejum, as pessoas tratavam de se banquetear com extravagância, porque seriam 40 dias de comedimento – a quaresma, assim mais tarde chamada pela igreja Católica. Na verdade, o Carnaval foi criado na Grécia e o jejum que ele precedia tinha a finalidade de solicitar aos deuses “fertilidade e boa colheita”.

Tudo bem que neste ano de 2015, alegando “crise” e outros males, muitos prefeitos falam em “cancelar o Carnaval”, cujas festas quase sempre requerem recursos públicos. Há também os que não gostam de Carnaval, por motivos pessoais, morais, religiosos. Evitemos aqui entrar no mérito, mas só vale lembrar que, embora seja uma festa pagã, o Carnaval tem no mínimo seu valor enquanto manifestação cultural. Imagine o Rio de Janeiro ou Olinda sem Carnaval? É o mesmo que arroz sem feijão, goiabada sem queijo... e a lista é sem fim.

 

Legenda: Em Folianópolis, digo, Florianópolis, até que encontraram um nome razoável, que faz trocadilho com o da cidade.

 

O grande problema, haja ou não Carnaval, seja ele subsidiado ou não pelos recursos públicos, é o nome. Em cada lugar, já não se fala mais em baile de Carnaval, festa de Carnaval e essas coisas tão antigas. Todos agora querem associar o nome da cidade, do bairro, do local, à festividade. São nomes de gosto quase sempre duvidoso, começados com “Carna...” ou começados ou terminados com “folia”. Em São Paulo, por exemplo, existe um tradicional “Folia na Faria” – a festa de Carnaval realizada na avenida Faria Lima. Experimente o leitor e a leitora fazerem combinações semelhantes... Surge cada coisa! Pior que muitas fantasias de Carnaval, que serão usadas este ano. Mas o pior de tudo é que tem muita gente adotando esses nomes para os carnavais das cidades e achando bem bonito. Não vou citar nada aqui para não ferir egos.

A pergunta, então: qual o problema em se contentar com o básico? Ou será que o espírito do Carnaval deve contaminar tudo com sua aura de bagunça e extravagância?

 

* Formado em Letras Clássicas pela USP, Agnaldo Holanda escreve e lê por gosto e ofício: atua como redator e editor. Contato: agnaldoholanda@gmail.com.

 

 

Revista Isturdia/ Folha Integração

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